 rochedos e pedregulhos de todos os
tamanhos. Não havia dúvida de que seria a coisa mais fácil do
mundo começar ali uma avalanche. Uma gruta abria-se na
face da rocha à frente delas.
- Os estábulos e as casernas ficam ali - disse Mya. - A última
parte do caminho é por dentro da montanha. Pode ficar um
pouco escuro, mas pelo menos estará livre do vento. As mulas
não vão mais além. Depois daqui, bem, é uma espécie de
chaminé, mais parecida com uma escada de mão em pedra do
que com degraus propriamente ditos, mas não é tão mau.
Mais uma hora e estaremos lá.
Catelyn olhou para cima. Conseguia ver as fundações do
Ninho da Águia diretamente por cima da cabeça, claras à luz
da alvorada. Não podiam ser mais de uns cento e oitenta
metros até lá. A parte de baixo parecia uma pequena colmeia
branca. Lembrou-se do que seu tio dissera sobre cestos e
guinchos.
- Os Lannister podem ter seu orgulho, mas os Tully nascem
com mais bom-senso. Cavalguei o dia inteiro e a maior parte
da noite. Diga-lhes para baixar um cesto. Subirei com os
nabos.
Quando Catelyn Stark finalmente chegou ao Ninho da Águia,
o sol estava bem acima das montanhas. Um homem
atarracado, de cabelos grisalhos, com um manto azul-celeste e
a lua e o falcão no peitoral de ferro martelado, a ajudou a sair
do cesto. Sor Vardis Egen, capitão da guarda de Jon Arryn. A
seu lado estava Meistre Colemon, magro e nervoso, com
cabelo de menos e pescoço de mais.
- Senhora Stark - disse Sor Vardis -, o prazer é tão grande
como inesperado.
Meistre Colemon inclinou a cabeça em sinal de acordo.
- De fato é, minha senhora, de fato é. Enviei uma mensagem
à sua irmã. Ela deixou ordens para ser acordada no instante
de sua chegada.
- Espero que tenha tido uma boa noite de repouso - disse
Catelyn com certa acidez no tom que pareceu passar
despercebida.
Saiu da sala dos guinchos acompanhada pelos homens e subiu
uma escada em espiral. O Ninho da Águia era um castelo
pequeno pelos padrões das grandes casas; sete esguias torres
brancas, tão juntas como setas numa aljava, sobre uma
saliência da grande montanha. Não tinha necessidade de
estábulos, oficinas de ferrreiros ou canis, mas Ned dizia que
seu celeiro era tão grande como o de Winterfell e as suas
torres podiam albergar quinhentos homens. A Catelyn, no
entanto, pareceu estranhamente deserto quando o atravessou,
com os salões de pedra clara cheios de ecos e vazios,
Lysa a esperava sozinha no aposento privado, ainda vestida
com a camisa de dormir. Seus longos cabelos ruivos caíam-lhe
soltos sobre os ombros brancos e pelas costas. Uma criada
estava em pé atrás dela, escovando os nós da noite, mas,
quando Catelyn entrou, a irmã pôs-se em pé, sorrindo.
- Cat - disse, - Ah, Cat, como é bom vê-la. Minha querida irmã
- correu pelo quarto afora e envolveu a irmã nos braços. -
Tanto tempo - murmurou Lysa contra seu corpo. - Ah, tanto,
tanto tempo.
Na verdade, tinham sido cinco anos; cinco anos cruéis para
Lysa, que lhe tinham cobrado seu preço. A irmã era dois anos
mais nova, mas agora parecia a mais velha. Mais baixa que
Catelyn, o corpo de Lysa tornara-se mais largo, e o rosto,
pálido e inchado. Tinha os olhos azuis dos Tully, mas os dela
eram claros e aguados, sem nunca parar quietos. A pequena
boca tornara-se petulante. Enquanto a abraçava, Catelyn
recordou a garota magra de peito erguido que esperara a seu
lado naquele dia, no septo de Correrrio. Tão encantadora e
cheia de esperança. Tudo o que restava da beleza da irmã era
a grande cascata de espessos cabelos ruivos que lhe caíam até
a cintura.
- Está muito bem - mentiu Catelyn -, mas... parece cansada.
A irmã se afastou do abraço.
- Cansada. Sim. Ah, sim - pareceu então reparar nos outros; a
criada, Meistre Colemon, Sor Vardis. - Deixem-nos - disse-
lhes. - Desejo conversar com minha irmã a sós - permaneceu
de mão dada com Catelyn enquanto eles se retiravam...
... e deixou-a cair no instante em que a porta se fechou.
Catelyn viu seu rosto mudar. Era Buo se o sol tivesse se
escondido atrás de uma nuvem.
- Será que perdeu o juízo? - exclamou Lysa. - Trazê-lo para
cá, sem um pedido de licença, sem sequer um aviso,
arrastando-nos para as suas querelas com os Lannister...
- Minhas querelas? - Catelyn mal podia acreditar no que
acabara de ouvir. Um grande fogo ardia na lareira, mas não
havia sinal de calor na voz de Lysa. - As querelas começaram
por serem suas, irmã. Foi você quem me enviou aquela
maldita carta, foi você quem escreveu que os Lannister
assassinaram seu marido.
- Para preveni-la, para que pudesse ficar longe deles! Nunca
pretendi lutar com eles! Deuses, Cat, sabe o que você fez?
- Mãe? - disse uma vozinha. Lysa virou-se, com o pesado
roupão rodopiando à sua volta. Robert Arryn, Senhor do
Ninho da Águia, estava na porta, agarrado a uma
esfarrapada boneca de pano e olhando-as com grandes olhos.
Era uma criança dolorosamente magra, pequena para a idade
e toda a vida enfermiça, e de tempos em tempos estremecia.
Os meistres chamavam àquilo a doença dos tremores. - Ouvi
vozes.
N